LEOPOLDINAS

A arquiduquesa austríaca, rainha portuguesa e Imperatriz Leopoldina no Brasil recebe um convite inusitado: ser madrinha de honra da grande final de futebol de várzea no bairro em São Paulo que tem o seu nome. Desembarcando na estação de trem da Vila Leopoldina, entra em uma busca incansável pelo endereço que está no convite. Onde fica o campo de futebol do Clube Atlético Continental, local em que ocorrerá a partida final entre o clube e o Bela Aliança?

Em busca de sua resposta, a imperatriz do séc. XIX encontra-se à deriva em pleno séc. XXI e como uma personagem fora do tempo, vivencia os conflitos da urbanidade atual, se deparando com o desconhecimento da identidade do bairro até por aqueles que o habitam.

Leopoldina vai encontrando no seu caminho personagens emblemáticos para formação deste bairro, que surgiu na bifurcação entre dois importantes rios da cidade de São Paulo, o Tietê e o Rio Pinheiros. O lugar foi palco da fortificação dos colonizadores contra os índios, liderado pelo Bandeirante Afonso Sardinha a serviço da corte e também ponto de partida para as bandeiras que avançaram interior adentro, dando origem às grandes rodovias que começam nesta região (Bandeirantes, Anhanguera, Raposo Tavares, etc.)

Com a ajuda deste bandeirante, a imperatriz se defronta com o imigrante libanês que fez fortuna na região como grande investidor do mercado imobiliário e que a partir dos anos 50 desenhou o perfil industrial do bairro: Mofarrej. O empreendedor foi quem transformou o charco dos rios em galpões industriais, alugando e vendendo, mantendo uma boa relação política com os prefeitos e vereadores da época. E assim, também construiu seu império.

O encontro entre a grande Imperatriz do Brasil e o Empreendedor do Ramo Imobiliário se dá em uma partida de cartas – jogada sobre uma mesa improvisada com caixotes de frutas em uma das ruas do maior entreposto de hortifrútis da América Latina, o Ceasa. Ali , no coração da Vila Leopoldina, o Ceasa é quase um bairro a parte dentro do bairro. Nesta partida de baralho, através de um embate cheio de acidez nos diálogos, a Imperatriz se defronta com a realidade da origem do nome do lugar. Descobre que não se trata de uma homenagem a ela, e sim uma referência a senhora Leopoldina Kleeberg, esposa de um dos primeiros empreendedores imobiliários da região, que tentou um novo bairro ainda no sec. XIX, mas que não teve tanta sorte como Moffarej…

É com esta ficção – entrecortada com depoimentos históricos de antigos e novos moradores, comerciantes e estudiosos da região – que o coletivo casadalapa compõe este documentário, onde enfatiza, com intervenções artísticas, a ocupação do bairro e suas transformações imperativas pelo mercado imobiliário.

Historicamente um ponto de passagem e entreposto de abastecimento, passando de várzea a bairro industrial, hoje se transforma em bairro verticalizado de alto padrão e prestador de serviços com apelidos como “Nova Moema” e “Hollywood Paulistana”, pela concentração de produtoras e locadoras de equipamento cinematográficos.

Um bairro que acaba não preservando sua origem e sua identidade e que foi se moldando e se transformando pelos interesses econômicos, esquecendo o começo desta charmosa Vila Leopoldina de tempos atrás. Talvez a Imperatriz seja capaz de resgatar, ao menos em parte, essa história.